EF Cast chega à sua terceira edição com Ricardo Grassmann, da WAY2

Empreendedor deixa dicas para quem está começando: da busca por oportunidades à captação de recursos, passando por estratégias importantes e leituras inspiradoras.
Ricardo Grassmann, da WAY2

No dia 15 de junho, foi realizada a terceira edição do EF Cast, uma série de encontros com empreendedores que se destacam no setor elétrico brasileiro. Apolo Lira, head do Energy Future, comandou esse bate-papo, que contou com a presença de Ricardo Grassmann, diretor presidente da WAY2 Serviços de Tecnologia, que fornece soluções de software para áreas estratégicas de empresas do setor, além de soluções para consumidores e para o novo mercado varejista, representado pela geração distribuída.

Ricardo trabalhava com telecom e sua trajetória no setor elétrico começou em 2001, atrelada ao momento histórico de racionamento de energia pelo qual o Brasil passava. “Estava dentro de uma distribuidora na época, vi o caos que aquilo foi para o mercado. A tecnologia era um problema e os sistemas não se falavam, ao passo que era preciso se adequar a novas normas que nasciam em Brasília”, relembra. 

Ele trabalhava na Eletropaulo e tinha a missão de atender clientes insatisfeitos com o contexto. Por exemplo, líderes de indústrias que precisavam produzir menos e economizar 20% de energia para evitar multas. Tratava-se de um projeto de monitoramento de consumo de energia, criado para ajudar clientes. “Eles não sabiam como economizar porque não tinham o conhecimento de como consumiam. Então a iniciativa tinha muito link com o momento e era voltada principalmente para a indústria, que foi quem mais sofreu”, relatou. 

Segundo o empreendedor, antes desse grande racionamento, a energia era algo disponível. No entanto, com a chegada da crise, veio o problema da indisponibilidade. “Tinha industrial que queria pagar o dobro, mas não havia energia para ofertar a ele. E o único caminho era que ele entendesse seu consumo. Essa é uma dor que surgiu lá atrás e que existe até hoje pois, em geral, não se entende muito bem como se consome a própria energia. Vinte anos depois ainda procuramos resolver isso”, explicou.

A empresa passou por um momento difícil e o projeto interno de Ricardo teve fim após o racionamento. Ele não se conformou com o encerramento de uma iniciativa que era importante para o país. “Não é possível que a política evite que a gente faça algo bom para a companhia e para o mercado. Pedi demissão e liguei para um amigo que também estava insatisfeito com o mundo político das empreiteiras onde trabalhava. Disse para ele se demitir também, pois iríamos trabalhar juntos. Decidi simplesmente ser empreendedor e dali veio um caminho longo que virou a WAY2, em Florianópolis”, contou Grassmann, que é paulistano. 

Inovar no setor elétrico

Ricardo acredita que, quando chegou ao setor, era preciso modernizá-lo. E a legislação estava evoluindo nesse aspecto. “A tecnologia era necessária. Inteligência, agilidade e integração entre os agentes. O mercado precisava fazer a liquidação financeira da parte comercial com a parte energética e técnica. Já hoje é o contrário, temos muita tecnologia ajudando e tudo ficou muito complexo, precisamos simplificar. É um mercado difícil para o empreendedor e a maneira de facilitar é usando a tecnologia.”, pontuou.

“É um mercado difícil para o empreendedor e a maneira de facilitar é usando a tecnologia.”

Ricardo Grassmann, diretor presidente da WAY2 Serviços de Tecnologia

“Montamos a empresa em 2005, quando não era tão fácil o acesso a recursos financeiros. Hoje em dia há uma cadeia ajudando o empreendedor, existe o investimento anjo e por aí vai. Brinco que é um mundo mais ‘nutella’ e que eu sou mais ‘raiz’, sou da época em que você pegava o planejamento do negócio, colocava debaixo do braço e batia nas portas. A WAY2 nasceu assim, havia um problema real e acreditávamos ter competência para resolvê-lo”, conta Ricardo. E, a partir desse pontapé inicial, a empresa se desenvolveu e trilhou uma trajetória de sucesso.

Grassmann apontou os dois momentos de maior dificuldade nessa estrada. O primeiro deles foi quando deixaram de ser os “meninos da WAY2”. “Oferecíamos um atendimento exclusivo, que um cliente não teria de uma multinacional. Mas chegou uma hora em que ocupamos um porte maior, do ponto de vista do cliente, que começou a exigir de uma empresa pequena a estrutura de uma empresa grande. Esse foi um momento difícil”, relatou.

O segundo grande desafio veio em 2012, com a Medida Provisória 579. “A MP sacudiu o setor elétrico, as distribuidoras passaram por muita dificuldade e houve o reflexo da subida de preços. Tocar a empresa num cenário de recessão, havendo muitos colaboradores e uma folha de pagamento alta, foi um momento difícil, pois temos preocupação legítima com as pessoas”, recordou-se.

“A gente passa muito tempo da vida trabalhando, inclusive abre mão do contato com a família em alguns momentos. É preciso fazer algo que tenha um propósito. E o da companhia sempre foi o meu. O mundo tem um desafio grande, o planeta já mostrou que tem limite. E há muita gente na linha da pobreza, fora do mercado, sem acesso a energia e sem o que comer. Imagina se a gente vence esse desafio de melhorar o mundo? Me apaixonei pelo setor elétrico, que está muito conectado com o que acho que nosso mundo precisa e com o mundo que quero deixar para meus filhos. É desafiador, não é fácil, mas o propósito é incrível”, argumentou Ricardo.

Empreendendo na prática

“É extremamente desafiador empreender no Brasil. E ninguém faz nada sozinho, então monte um time que conte com alguém que conheça profundamente o mercado, e que tenha conexões e network, pois esse time também vai precisar de parcerias”, analisou Ricardo. Por outro lado, ele acredita que atualmente está mais fácil empreender no setor elétrico. “As oportunidades existem, há mais tecnologia, mais recursos e o programa de P&D da ANEEL evoluiu muito”, apontou.

Na opinião dele, não falta dinheiro, pois o setor elétrico tem uma parte de oferta de recursos específica. Ele acha que faltam bons projetos. “Foque primeiro em fazer um bom projeto, resolver uma dor, de modo que faça sentido para o mercado. Tenha clareza de como isso vai virar dinheiro, de forma que você possa crescer e dar o retorno para o investidor. Se conecte aos ecossistemas de inovação e de empreendedorismo e o dinheiro estará disponível”, aconselhou Ricardo.

“Foque primeiro em fazer um bom projeto, resolver uma dor, de modo que faça sentido para o mercado. Tenha clareza de como isso vai virar dinheiro, de forma que você possa crescer e dar o retorno para o investidor.”

Ricardo Grassmann

Ele acredita que P&D é um excelente recurso para quem desenvolve tecnologia em produtos de hardware. “Você faz todo o ciclo de inserção do produto no mercado, com hardware principalmente. Software é um pouco mais complicado por conta dos quesitos de propriedade intelectual e esse é um desafio a ser vencido, mas o P&D também ajuda bastante. Na WAY2 a gente usa muito esse recurso para tiros mais longos, para aquilo que imagino que em cinco anos estará acontecendo no setor. A ideia é trazer tecnologias que hoje não estão presentes e ver a viabilidade”, observou.

Ricardo também falou sobre a importância do tema cibersegurança. “Trabalhamos com dados muito sensíveis e isso sempre foi uma grande preocupação para nós na WAY2. Eu diria que cybersecurity passa muito pelas pessoas, pela governança. Investimos muito em controle de acesso e em política interna para lidar com a informação. Na época de telecom tive muito contato com o tema e aprendi com israelenses: onde a tecnologia falha é na parte das pessoas, o ser humano falha no processo. Então nunca se esqueça dessa dimensão, pois a gente falha bastante na questão de segurança”, ponderou. 

Segundo Grassmann, quem quer empreender, independente do setor, deve dividir os desafios. “Aquele mundo antigo de competição joga contra a inovação e o empreendedorismo em si. Divida para crescer, é muito melhor”, concluiu o empresário.

“Aquele mundo antigo de competição joga contra a inovação e o empreendedorismo em si. Divida para crescer, é muito melhor.”

Sugestões de leitura

“Li um livro chamado ‘A Origem das Marcas’, que mudou minha maneira de pensar. Fala sobre a teoria de Darwin para negócios. As grandes marcas que se criam em cima de produtos e de linhas não têm a ver com convergência, e sim com divergência. As pessoas vão se especializando, acho que o mundo daqui para a frente é de especialistas. Mas fazer só uma coisa muito bem feita não resolve uma dor de mercado, então integração torna-se fundamental e tecnologias abertas fazem mais sentido. Integração para mim hoje é a base da evolução de qualquer mercado”, analisou Ricardo.

Ele também contou que vai ler o livro de um amigo, Conrado Schlochauer, chamado “Lifelong learners: o poder do aprendizado contínuo”. “Meu espírito é de aprender ao longo da vida, sem parar nunca, dividindo esse aprendizado com os outros. Sou muito empírico nesse caso, vou aprendendo o que é preciso de acordo com os desafios dos momentos. Acho que o livro ensina mais sobre o que está por trás desse tipo de aprendizado”, avaliou. 

Outra dica que Ricardo deixou foi a do livro “Profit from the Core”, que incentiva o olhar para o core business do negócio para ver seu potencial de crescimento. “Uma leitura, na minha opinião, obrigatória em crises. Estou relendo pela terceira vez nesse momento de pandemia”, finalizou Grassmann. 

Total
0
Shares
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Posts