Eduardo Szrajbman: “Novas startups devem se posicionar em parceria com universidades e empresas de base tecnológica.”

Sócio-diretor Comercial da empresa Tecnoclade Sistemas destaca a parceria entre startups e academia para a criação de propostas de inovação mais maduras para o mercado.
Eduardo Szrajbman, sócio-diretor Tecnoclade Sistemas

A  supervalorização de empreendedores que, com uma ideia e pouco investimento, transformaram-se em sucesso é uma recorrência na mídia. O que os holofotes não destacam, que eles são também exceções. Na vida real, são as parcerias estratégicas que movimentam novos negócios. 

A crença é compartilhada por Eduardo Szrajbman, sócio-diretor da empresa Tecnoclade Sistemas: “Estamos, há mais de 10 anos, trabalhando como executores de projetos de P&D, sempre buscando parcerias”. Se de um lado a análise técnica e tecnológica de uma proposta pode passar pela validação e contribuição da academia, a inserção no mercado ocorre com o reconhecimento do valor pelas empresas de energia, afirma Szrajbman.

Com foco na gestão de projetos que levem inovação para o mercado, a empresa Tecnoclade Sistemas é a executora do projeto Tecnoclade SmartSafety – Identificação de Rompimento de cabos com Tecnologia Smart Grid e Chave Eletrônica para Operação em Curto-Circuito. A proposta foi uma das seis selecionadas como projeto destaque na Seleção Setorial do Energy Future em 2020.

Como vocês chegaram no projeto de identificação de rompimentos de cabos por meio da tecnologia smart grid?

A gente tem uma parceria muito boa com o CEFET, com os professores João Amin Moor e Mauro Vaz, que já participaram com a gente de outros projetos. E, em 2019, começamos a conversar sobre o projeto de rompimento de cabos. A ideia era que eles oferecessem o background acadêmico de eletrônica de potência e modelagem avançada, e a TECNOCLADE ofertasse o know-how de instrumentação eletrônica, sistemas embarcados e processamento de sinais. Era um casamento perfeito.

E nós pegamos uma dor que é muito real. Rompimento de cabos pode causar mortes. No mundo inteiro, você encontra relatos dessa situação. Portanto, é para evitar perdas de vida e mitigar riscos à sociedade e às concessionárias. Além disso, aproveitamos para agregar valor às concessionárias, melhorando a religação automática com uma chave inteligente, melhorando uma parte da manutenção preditiva com a integração de analytics, junto com o equipamento.

O objetivo era não só pegar essa situação extrema (referindo-se às mortes decorrentes do rompimento de cabos), mas também tentar gerar valor para o cliente, que é a empresa de energia. Assim, criamos a plataforma. Daí pra frente, fomos estruturando. E achei excelente a possibilidade de inscrever para um edital como do Energy Future, que busca não somente projetos de P&D, mas também de startups.

Refletindo a jornada de vocês nestes últimos 2 anos, quais foram os desafios e oportunidades que encontraram?

Durante este período, estávamos com um projeto da Light em andamento para uma aplicação no mercado. Além disso, tínhamos ganho um edital do Banco Interamericano de Financiamento exatamente para tratar da gestão energética no poder público. Assim, tivemos a oportunidade de trabalhar bastante durante a pandemia.

Nós da Tecnoclade mobilizamos nossa equipe, contratados inclusive, e nossa instrumentação, para avançar na proposta. A equipe do CEFET, sob a liderança do João e do Mauro, avançam com a modelagem e as simulações. É um excelente trabalho cooperativo.

A gente tem conseguido com esses recursos internos avançar bastante nas aplicações, mas sempre em bancada, porque, infelizmente, ainda não temos recursos para ir ao campo. O P&D seria importante, pois possibilitaria um maior nível de maturidade tecnológica. O TRL (Technology Readiness Level) com testes em campo bem-sucedidos, possibilitaria um imenso aumento no valuation desta tecnologia. Mas temos conseguido fazer bons avanços. O professor Mário Vaz, até engraçado falar, porque é meu pai, ele tem um background excelente para a demanda desta instrumentação avançada, como engenheiro de física de altas energias.

Como é ter esse recurso imenso dentro de casa?

Meu pai é mentor da empresa desde 2010. Professor da UFRJ, desde a década de 60. E ele tem esse know-how muito grande nessa parte de instrumentação de pequenos sinais. Portanto, ter ele com a gente neste projeto é excelente. E a gente consegue ir avançando muito bem até a chegada dos testes em campo, dos ensaios, porque aí realmente fica mais caro, e precisaríamos de um investimento, como o P&D Aneel. Assim, como já tivemos em outros projetos desenvolvidos.

O P&D Aneel é muito legal, porque atuando com a concessionária, você customiza sua proposta de valor para agregar o máximo às empresas. Você faz um processo de design thinking de um equipamento, de uma solução, com recursos necessários e em um sítio de testes da própria empresa. O que para nós seria fundamental, pois hoje não temos como fazer aqui em bancadas muitas simulações, caracterizações dos sinais necessários.

Você tem um background de P&D no setor de óleo e gás, como você avaliaria o P&D no setor elétrico?

Eu sou sócio minoritário de uma empresa chamada Facto Energy. E ela fez um mapeamento de P&D Óleo e Gás e do Setor Elétrico com a embaixada britânica e a  Mackenzie. Enquanto o P&D ANEEL, a gente já observa diversidade, de abrir oportunidades para uma empresa como a Tecnoclade, de pequeno porte, para desenvolver tecnologia junto com a concessionária, levando isso para o mercado. Assim, o setor elétrico  consegue fomentar uma empresa nacional de tecnologia, que vai poder levar a inovação não só para o setor elétrico, mas para a  sociedade brasileira, gerando empregos.

Você que atua há mais de 10 anos com o P&D da Aneel, quais avanços você acredita serem necessários para torná-lo ainda mais democrático?

Acho que é importante a regulamentação trabalhar melhor a questão dos riscos, da glosa. O crivo é necessário para uma boa seleção de projetos. No entanto, é meio contraditório na natureza do P&D apresentar um risco tão elevado. A inovação é sempre um risco, você pode investir em uma tecnologia, que no final não deu certo.

Mas é preciso um maior espaço para que as concessionárias façam esses investimentos, testes, sem serem prejudicadas. Porque isso acaba incentivando apenas riscos pequenos, como os projetos acadêmicos, que não resultam em entregas para o mercado. E empresas, como a Tecnoclade, de base tecnológica, com risco mais elevado, mas que quer gerar soluções para o mercado, precisam ser incentivadas, sem correr o risco da glosa. 

Talvez o importante seja um framework regulatório que incentive as empresas a investirem em mais empresas de base tecnológica, com a diminuição do risco de glosa. Esse deveria ser o futuro do foco regulatório.

Com sua bagagem de projetos de P&D implementados, qual seria o seu conselho para aqueles que querem empreender no setor elétrico?

Primeiro, buscar parcerias. É algo que a gente faz muito e desde o começo da nossa história. Se eu estivesse começando agora, eu iria tanto pela parceria com outras empresas de bases tecnológicas, que já tenham conhecimento de P&D e de uma gestão de projetos consolidada. Inclusive, estamos trabalhando com uma startup, que é o pessoal da Wings incubada no CEFET, que trabalha com a gente no desenvolvimento da parte eletrônica: placas de circuito impresso, roteamento, fabricação da eletrônica. 

Mas também buscaria parcerias com a academia, algo que sempre fizemos. A gente participou de um edital da Furnas, junto com o laboratório de média tensão da Coppe|UFRJ. A gente participou em outra parceria com a Coppe, agora Laboratório de Metodologia Aplicada, em um projeto de rede temática de sensoriamento remoto da Petrobras. Trabalhamos com vários laboratórios da universidade. Neste projeto de identificação de rompimento de cargas, tínhamos uma parceria muito grande com a COPPE da UFRJ no desenvolvimento de algoritmos e inteligência artificial. De novo, a TECNOCLADE atuando na parte de pegar a inovação e transformar em um produto com foco de mercado e a academia desenvolvendo algoritmos e simulações. Então é interessante que novas startups se posicionem em parcerias com as universidades e com empresas de base tecnológica, que já estão fazendo bem a gestão de projetos.

Outro ponto importante para uma nova empresa é o foco. Não ser uma empresa que desenvolve vários projetos, sem a definição de um core. No nosso caso, a gente atua na parte de gestão e eficiência energética, querendo desenvolver equipamentos , o que faz sentido já tocar na parte de segurança, mas centrada na instrumentalização. Portanto, somos uma empresa de instrumentação, de desenvolvimento de eletrônica. 

Você ressalta muito a necessidade de parcerias, assim projetos ilhas não sobreviveriam, especialmente no setor elétrico. Como vocês lidam com a questão da propriedade intelectual nestas parcerias?

Propriedade intelectual é sempre uma parte estratégica e, ao mesmo tempo, complicada. Por exemplo, no último projeto realizado com a Ampla e Light, foi muito interessante. Tínhamos um padrão de dividir a propriedade intelectual. No caso do projeto, 50% Light, 25% Tecnoclade e 25% Facto. Executoras ficaram com 50% e negociamos o direito de propriedade intelectual, porque nosso foco é levar inovação para o mercado.O que a gente mais quer é pagar royalties para concessionárias. Esse modelo é muito bom.

Quando envolve universidade é aí que está o problema. Porque geralmente a universidade é muito burocrática na propriedade intelectual. Eu já vi projetos de universidades com tecnologia de grande valor para o mercado, em que apareceu um grande player, querendo comercializar a tecnologia, mas as executoras eram somente, sem fins lucrativos: universidade e marinha, por exemplo. E a comercialização daquela tecnologia, gerando valor para a sociedade, gerando royalties para a financiadora e para quem participou do projeto, não foi possível. Não houve um acordo simples para dar andamento. 

Assim, aqui, tentamos alinhar isso, ao máximo, com nossos parceiros da academia. Antes de assinar o contrato com o parceiro acadêmico, deve ter isso bem negociado. Como uma startup, você tem que levar seu produto, ideia pro mercado.

Você que já participou de outras chamadas, como o Energy Future pode contribuir com o seu projeto?

Já participamos de muitas chamadas, mas o Energy Future foi muito legal, pois eu pude resgatar meus estudos em administração na Coppead, com a implementação de um modelo de negócio, de marketing, de agregar em estratégia, agregar valor com esse framework de startup.

É muito interessante mapear o projeto com esse framework de capital de risco, isso agrega muito valor. Você revê etapas e pode fazer e detalhar um plano de negócios. A mentoria também nos orientou a não levar tanto para um foco técnico, mas foco no mercado, comercial. Foi refrescante voltar a essa parte. Eu não fazia um pitch, com esse foco em negócios e estratégia, há muito tempo.

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