Dia Internacional da Mulher: presença feminina vem crescendo no setor de energia

Diversidade de gênero no mercado aumenta a produtividade e traz ganhos em inovação e na rentabilidade dos negócios.
Mulheres no Setor de Energia

As mulheres são mais da metade da população brasileira, mas ainda estão em busca de equidade de direitos com relação aos homens, e o mercado de trabalho é um dos principais ambientes que evidenciam os aspectos dessa desigualdade. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que apesar de serem a maior parte da população com ensino superior completo, as mulheres ainda ganham 25% menos que os homens. Se considerarmos as mulheres negras, a disparidade salarial no Brasil aumenta para 40%.

Em termos de representatividade a diferença também é nítida: de acordo com dados do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), existem mais de um milhão de profissionais ativos das áreas de engenharia, agronomia e geociências no país, englobando graduados e tecnólogos. Desse total, apenas cerca de 189 mil são mulheres.

O setor energético, em especial, ainda sofre em nível global com a falta de diversidade de gênero. Dados da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) mostram que as profissionais do sexo feminino ocupam apenas 22% dos empregos na área de energia elétrica em todo o mundo. Embora os homens ainda estejam em número consideravelmente maior no setor elétrico, a participação das mulheres cresce cada vez mais e elas estão inovando e ocupando lugares de destaque no mercado, na academia e nas organizações públicas.

Nesse sentido, as práticas voltadas à igualdade de gênero são fundamentais. Elas ajudam a combater reflexos de uma cultura que colocava as mulheres do ramo da engenharia prioritariamente em cargos de suporte aos homens, o que abalava a autoestima dessas profissionais, que não tinham incentivos para investir na ocupação de postos de liderança.  De acordo com dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), empresas com forças de trabalho diversas são 22% mais produtivas e alcançam rentabilidade 27% maior, isso sem falar no ganho social. Alcançar a igualdade de gênero poderia somar US$ 12 trilhões à economia global.

Alcançar a igualdade de gênero poderia somar US$ 12 trilhões à economia global.

Fonte: Banco Interamericano de Desenvolvimento

Ao longo da história, os campos da ciência, tecnologia e engenharia são impactados pelos preconceitos de gênero, que provocam a exclusão feminina dessas áreas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNESCO, as mulheres representam apenas 35% do total de estudantes matriculados em carreiras relacionadas a esses campos. Isso se reflete no mercado de trabalho: na América Latina e no Caribe, apenas 20% dos trabalhadores no setor de energia são mulheres. Entre os principais motivos pelos quais as meninas deixam de demonstrar interesse nessas áreas estão os estereótipos, os papéis de gênero, as expectativas e a falta de apoio das famílias, dos professores e colegas, bem como o fato de terem poucos exemplos femininos, desses ramos, para se espelharem.

Uma maior presença de mulheres no mercado energético permite ao setor recorrer a talentos femininos inexplorados, além de contribuir para a distribuição socialmente justa de oportunidades. O BID tem uma ferramenta online de Análise de Lacuna de Gênero, o Women Empowerment Principles Gap Analysis tool (WEP), que consiste em 18 perguntas de múltipla escolha que ajudam a empresa a avaliar seu desempenho em termos de igualdade de gênero. Além disso, o Fundo Mulher financia empreendedoras ou empresas dispostas a valorizar as mulheres, fora os certificados existentes para empresas que priorizam a diversidade em seu ambiente de trabalho.

Profissionais que fizeram história no setor elétrico

Nesse Dia Internacional da Mulher, o Energy Future, que se orgulha de ter 50% de seus cargos ocupados por mulheres, relembra profissionais do sexo feminino que fizeram história e trouxeram grandes contribuições ao setor elétrico, além de serem exemplos inspiradores que abriram caminhos para ampliar a diversidade de gênero no ramo energético.

Edith Clarke (1883 – 1959)

Ela foi a primeira mulher a receber o diploma de engenharia elétrica do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, em 1918. Foi a primeira professora de engenharia elétrica do país, integrando o corpo de docentes da Universidade do Texas. Um de seus principais feitos é a Clarke Calculator, um dispositivo para resolver problemas de linha de transmissão de energia elétrica.

Ela foi a primeira mulher a entregar um artigo no American Institute of Electrical Engineers (AIEE), mostrando o uso de funções hiperbólicas para calcular a potência máxima que uma linha pode carregar sem ter instabilidade. Ainda teve dois artigos premiados pela AIEE. Também é autora de um livro importante para a engenharia, o Circuit Analysis of A-C Power Systems (1943). Recebeu o The Achievement Award da Society of Women Engineers em 1954 e entrou para o Hall da Fama dos inventores dos Estados Unidos, em 2015.

Mária Telkes (1900 – 1995)

Biofísica e húngara, ela ficou conhecida por seus estudos relacionados à energia solar no MIT. No ano de 1944, trabalhando para o U.S Office of Science Research and Development, ela criou um destilador solar. Em meio à Segunda Guerra Mundial, esta foi uma criação importante para a sobrevivência. No final da década de 40, Mária inventou o gerador e o refrigerador termoelétricos.

Ela também desenhou e construiu, juntamente com a arquiteta Eleanor Raymond, a primeira casa aquecida com energia solar. Também trabalhou no desenvolvimento de um forno solar. Em 1952, Mária Telkes recebeu o prêmio as Socitety of Women Engineers Achievement Award. Alguns anos depois, em 1977, recebeu um prêmio da American Solar Energy Society. Em 2012, ela entrou para o National Inventors Hall of Fame e muitos a chamam de Rainha do Sol.

Enedina Marques (1913 – 1981)

Brasileira, nascida em 1913, foi pioneira no ramo: ela foi a primeira mulher negra a se formar em engenharia no país, em 1945. Precisou batalhar muito para conquistar uma vaga em universidade no Brasil, que tinha abolido a escravidão há pouco tempo naquele momento, fora a dificuldade decorrente da questão de gênero. Após a escola, ela foi normalista e professora. Concluiu um curso noturno de pré-engenharia em 1938 e somente em 1940, aos 31 anos, ela foi aprovada na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Precisou copiar trechos de livros que não tinha condições de comprar e recorreu ao trabalho doméstico para arcar com custos para sua formação.

Em 1947, no Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica do Paraná, foi responsável pelo planejamento do plano hidrelétrico do estado e desenvolveu um trabalho no aproveitamento das águas dos rios Capivari, Cachoeira e Iguaçu. Outro projeto importante foi o planejamento da Usina Hidrelétrica Governador Parigot de Souza (Antonina – PR), inaugurada apenas na década de 1970. Com uma carreira sólida, viajou pelo mundo e se aposentou em 1962 reconhecida como uma grande engenheira. Ela faleceu em 1981, deixando um importante legado para a engenharia brasileira e para a cultura negra. Foi importante na luta por um país mais justo e menos racista.

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