Guilherme P. Linhares: “Vamos inovar, mas vamos manter as regras.”

Diretor-técnico da empresa L2 Engenharia de Projetos Ltda, executora do projeto Subestação Modular Compacta, Guilherme P. Linhares conta como é possível inovar, incorporando as regulamentações do mercado de energia.
Entrevista Guilherme P. Linhares

O caminho do empreendedor no setor elétrico vai além do desenvolvimento de uma ideia inovadora. Conhecimento aprofundado do mercado e da solução proposta são trechos obrigatórios, que devem ser cumpridos, na jornada de prospecção de parcerias. “Você tem que ter certeza do que faz”, afirma Guilherme P. Linhares, um dos responsáveis pelo projeto Subestação Modular Compacta, proposta eleita destaque na categoria Novos Negócios em Geração e Transmissão na 1ª chamada setorial do Energy Future.

Junto com o sócio e diretor comercial, Ronaldo Felipe Lima, Linhares está à frente da empresa L2 Engenharia de Projetos, que executa a solução inovadora. Para o engenheiro, “ter um embasamento técnico” é o primeiro passo para despertar interesse de uma proposta. Ele destaca que, embora seja uma necessidade natural em outros setores, no setor de energia, é preciso maior disposição para comprovar o valor de uma entrega. “No mercado de energia, você nunca é reconhecido logo de cara.”

Se conhecimento é a marca para uma boa primeira impressão, a evolução das conversas ocorre com o entendimento de que a inovação passa pelas regras do mercado.  “É melhor ir com calma no mercado de energia … vamos inovar, mas vamos manter as regras tradicionais”, afirma Linhares.

Entendimento que inspirou o projeto de construção da Subestação Modular Compacta (SMC). Resultado de 8 anos anos de experiência da empresa com trabalhos no setor de energia elétrica, com destaque para atuação em projetos de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Parques Eólicos, a subestação nasceu da adaptação de serviços de montagem de subestações móveis para uma proposta de subestação fixa, com montagem rápida e padronizada, a fim de otimizar tempo das empresas com um produto pronto, testado e mais eficiente.

Guilherme P. Linhares (à direita) ao lado do sócio Ronaldo Felipe Lima (à esquerda).

Conte-nos um pouco sobre sua empresa. Como nasceu o projeto de Subestação Modular Compacta?

Começamos de maneira despretensiosa. Estávamos em um período com menos projetos em execução na empresa, menor faturamento e mais tempo ocioso. O que nos empenhou a novas ideias com o surgimento da Subestação Modular Compacta. Eu e o meu sócio, Felipe, começamos a pensar: por que a gente não transforma toda essa cadeia enorme de fornecimento, relacionado a projetos de subestações, em um produto? O Felipe então sugeriu montar todas as peças em um chassi. Chassis móveis já existem, mas isso implica em mais gastos para as empresas e tempo na montagem. Acreditamos que o produto seria uma subestação fixa.

Apresentamos a ideia para alguns clientes próximos. E a receptividade foi muito boa. Com isso, passamos a nos dedicar um pouco mais. Contratamos uma empresa para escrever artigos, registramos patente. E daí surgiu a ideia de inscrever o projeto em concursos de startups. Ano passado, conheci o Energy Future e vi uma oportunidade.

Como foi o processo de vocês para formatar a ideia em uma proposta de solução já amadurecida para o mercado?

A gente não tinha essa visão tão clara até começar o Energy Future. Depois do workshop oferecido, leitura de regulamentos e conteúdos sobre as expectativas do concurso e das empresas, a gente definiu que o problema principal a ser abordado era o tempo de implantação.  Logo no começo do nosso pitch deck, eu falo que o empreendedor só se atenta ao prazo, quando falam que a obra vai atrasar. Aqui no Brasil, infelizmente, é uma recorrência. A nossa proposta é solucionar ou minimizar esses atrasos. De forma que a gente consiga diminuir a cadeia de fornecedores das interfaces, transformando tudo isso em um produto.

E também por causa do próprio Energy Future, a gente foi pesquisar mais. Descobri o conceito de product-as-a-service. O nosso é o contrário. A gente quer transformar os serviços em produtos para poder padronizar. Sabemos que o mercado de energia ainda é extremamente conservador. E acreditei que era uma boa ideia para melhor aceitação do mercado. 

Fala-se em inovação, mas quando bate no setor de energia, normalmente, tem uma parede, uma resistência a ideias novas. E por que existe essa resistência, que é bastante justifificável? Porque energia elétrica não pode faltar. Ninguém pode ficar sem consumir energia elétrica. Por isso, se você quer ter uma entrega qualificada, você tem que ter certeza do que você está fazendo. Você não pode errar. A sacada que tivemos foi: vamos inovar, mas vamos manter as regras tradicionais. O que significou isso para o nosso projeto? Produzimos todos os equipamentos necessários para o chassi, mas a gente vai respeitar todas as normas que existem hoje. Então a gente tá inovando a maneira de fazer, mas mesmo assim, respeitando as regras atuais. 

“A gente tá inovando a maneira de fazer, mas mesmo assim, respeitando as regras atuais.”

A sua abordagem parece que foi muito bem-sucedida neste mercado que caminha em direção ao novo, mas ainda tem raízes arraigadas a antigas concepções de processos.

A gente entende isso, porque a gente faz parte desse mercado. O nosso desafio é diário de fazer as pessoas entenderem e aceitarem novas ideias. A gente sempre se depara em discussões gigantescas, muitas vezes, por coisas simples. Melhor ir com calma no mercado de energia. Para não colocar logo em xeque a ideia, a proposta. Ser agressivo, mas nem tanto.

O mercado de energia está aberto a propostas inovadoras, mas tem suas próprias regras, como destacou. Se você pudesse dar uma dica a empreendedores que queiram começar a caminhada neste setor, qual seria?

Pode ser clichê o que vou dizer, mas é verdade. Você não precisa inventar um produto inovador. É muito difícil inventar algo que não exista. Como o Steve Jobs que inventou o Iphone, isso é muito difícil. Resultados de anos de trabalho, e chegou em um insight fantástico. Então a dica que eu poderia dar é: você não precisa inventar nada novo. Você pode aperfeiçoar algo que já exista, ou pode simplesmente mudar a ótica. Enxergar o que já existe sobre uma nova ótica, já pode ser considerada uma inovação.

“Enxergar o que já existe sobre uma nova ótica, já pode ser considerada uma inovação.”

O seu projeto está formatado como desenho experimental, na cadeia de inovação da Aneel cerca de 30% dos projetos aplicados estão nesta categoria. Como foi a empreitada de vocês para atingir um projeto mais maduro. Houve incentivo do mercado?

Chegamos até aqui, porque a mão-de-obra que dispomos é parte integrante da nossa equipe. Todos os profissionais, utilizados ao longo do desenvolvimento do projeto, são profissionais da área, que já trabalhavam conosco. O que fizemos foi reorganizar as horas para que eles pudessem empregar um parte da jornada neste projeto. 

De incentivo financeiro não tivemos nada. Foram os nossos próprios meios. Claro, tivemos incentivo moral. Fizemos apresentação para pessoas técnicas, que entendem do assunto, e tivemos uma receptividade absurda. Desde o primeiro momento até agora. 

Um projeto tem altos e baixos. Porque você fica mais dedicado ao trabalho, no dia a dia do caixa. Mas sempre que surgia a oportunidade de fazer a apresentação e como resposta: “essa ideia é boa”, gente voltava a focar energia.

Como vocês trabalham a cultura de inovação na empresa de vocês?

A gente sempre incentivou que a nossa equipe seja inovadora. Sempre ouvimos as ideias. o que torna tudo mais fácil. Na nossa empresa, todo mundo tem liberdade para propor, construir juntos. Não há resistência, portanto, às novas propostas trazidas, porque elas não são construídas em ambientes fechados. Nós trabalhamos com projetos, que envolve criação o tempo inteiro. 

Além disso, trabalhamos com datas e não com horários. Com o coronavírus, acentuou-se o entendimento desta faca de dois gumes que é a liberdade. Porque liberdade é também ter muitas responsabilidades.

Além das características já apontadas, que outros elementos destacaria, que elevaram a sua entrega de valor ao mercado de energia elétrica?

Acredito que as pré-definições do projeto ajudaram bastante. Depois da mentoria que a gente fez com o Energy Future, a gente aprimorou o nosso plano de negócios. E fomos incentivados pelo próprio Energy Future a buscar algumas respostas, como parâmetros claros, para os eventuais investidores. 

Por exemplo, a gente definiu todas as etapas: do início ao fim, com uma plano de ação do que a gente pretende fazer com o investimento que alcançar. Fizemos também um plano administrativo-financeiro. Essas respostas trazem segurança para uma maior atratividade dos investidores.

Eu também enxergo que conseguimos respostas positivas, porque o nosso projeto é sólido, fundamentado em ideias pré-estabelecidas da nossa experiência de trabalho na área. Além disso, como somos especialistas em projetos, antever problemas faz parte. Corremos sempre atrás de respostas.

Não ser acomodado com as respostas que possui parece ser uma característica importante para quem quer empreender neste mercado?

Exatamente. Eu aprendi, que só ser técnico não é suficiente. Por isso, eu busquei um aprimoramento pessoal na parte administrativa. Fiz um MBA em inteligência de negócio. O que abriu bastante a minha cabeça e impulsionou o projeto. Daí surgiu a ideia de fazer um plano de negócio, organizar as etapas, patentear as ideias. 

O engenheiro muitas vezes esquece da parte administrativa-geral e foca somente na parte técnica. Mas você precisa responder perguntas que não são técnicas como: como você vai vender? Quem você vai contratar? Quanto você vai gastar? … O meu aprimoramento, além da mentoria do Energy Future foi primordial. Vocês trouxeram pra gente questionamentos necessários. Se o projeto consegue responder, de forma sólida, e justificada, faz o negócio dar certo. A gente tem as ideias, mas é muito importante saber de fato quais são as respostas que o mercado quer colher.

Como um empreendedor, quais são os grandes desafios e oportunidades do setor elétrico? 

É necessário ter uma base sólida. Não basta ter uma ideia bacana. É preciso ter um embasamento técnico para convencer o pessoal da área de energia. Essa é uma exigência natural nos demais setores, mas acho que, no setor de energia, você precisa dedicar mais do seu tempo a isso, para aí sim adquirir o seu lugar. No mercado de energia, você nunca é reconhecido logo de cara. 

Outro ponto, você deve manter a qualidade do seu trabalho, do seu serviço, por um longo período de tempo para efetivamente ser reconhecido. A nossa empresa tem 8 anos, o que é uma empresa relativamente nova neste setor. Somente agora que eu consigo afirmar que a nossa empresa está sendo reconhecida, de forma mais consolidada no setor, como uma empresa de projetos.

A vantagens são que, depois que você passa por esse processo e que o reconhecimento vem, acredito que seja mais fácil você se manter por cima da onda. Você remou bastante, chegou a um determinado nível, certamente irá se desenvolver melhor.

Outra vantagem é que o mercado está mais receptivo às inovações. E o Energy Future tem um papel importante nesta receptividade. Quem organiza concursos têm um papel importante no incentivo à inovação. Abrir a mente do pessoal mais conservador para investir em novas ideias. 

Por fim, eu destacaria que  a economia em geral tem forçado investidores a investir em negócios. Investimentos em fundos, por exemplo, apresentam hoje menos lucro e maior risco. O que faz sobrar mais capital para quem tem mais disposição para trabalhar.

“O mercado está mais receptivo às inovações. E o Energy Future tem um papel importante nesta receptividade.”

Quais são seus planos com o projeto para os próximos meses?

Estamos passando por uma reformulação interna aqui na L2. Graças a Deus, temos tido um bom desenvolvimento no último semestre. Já mudamos de sede. Estamos investindo em melhores softwares e hardwares de gestão da empresa. Temos também um planejamento para contratação de alguns profissionais para continuidade do projeto, mesmo antes de eventual aporte nos próximos meses. O planejamento existe. E, no momento, investimos do nosso próprio bolso porque tudo precisa continuar andando.

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