Entrevista Santo Antônio Energia: ‘Novas soluções são sempre bem-vindas”

Ricardo Barbi Costa, diretor comercial regulatório da Santo Antônio Energia, comenta as atuais estratégias de inovação da empresa.
Ricardo Barbi Costa, diretor comercial regulatório da Santo Antônio Energia.

Quarta maior geradora hídrica do país e uma das 20 maiores do mundo, a Hidrelétrica Santo Antônio está localizada no rio Madeira, a sete quilômetros de Porto Velho, em Rondônia.

Com 50 turbinas, a usina tem potência instalada de 3.568 Megawatts, energia suficiente para o consumo de mais de 45 milhões de brasileiros. Por ser uma hidrelétrica a fio d’água, não dispondo de reservatórios, a Santo Antônio Energia é uma das principais responsáveis, hoje, pela energia gerada no país no cenário de redução do consumo devido à pandemia de coronavírus.

Em entrevista ao portal do Energy Future, o diretor comercial regulatório da Santo Antônio Energia e gestor responsável pela condução do programa de P&D da companhia, Ricardo Barbi, conta como a empresa atua no contexto atual de desafios econômicos, fala também sobre o papel de P&D para a área de inovação da empresa e o novo relacionamento com as startups.

Leia a entrevista completa.

Quais medidas vêm sendo adotadas pela Santo Antônio Energia em relação à contenção da pandemia de Coronavírus?

A usina hidrelétrica está localizada em Rondônia, Porto Velho. Em Porto velho, trabalham o diretor de operações, gerentes, engenheiros, técnicos e responsáveis que garantem o funcionamento da usina. Já em São Paulo, temos em torno de 70 pessoas, que atuam nas áreas administrativas. Isso inclui área comercial regulatória, à qual está inserida a gestão do programa de P&D, financeira, jurídica e diretoria executiva.

Em relação às ações que a empresa vem adotando, desde o início, por meio da área de pessoas, tivemos ações focalizadas em São Paulo e em Porto Velho. Com o aumento do número de casos, a empresa entendeu que toda a equipe baseada em São Paulo deveria fazer home office. Os colaboradores de São Paulo, portanto, estão em casa desde o dia 19 de março.

Em Porto Velho, como temos funções que, inclusive, a Aneel orienta não ter paralisações, foi determinado que somente o pessoal administrativo faça home office. Os demais colaboradores estão trabalhando com todos os cuidados possíveis, que são: o uso de máscara, álcool em gel e o respeito às distâncias. Mesmo não sendo hoje Rondônia um dos focos, temos tido cuidados expressivos, porque a empresa entende que o colaborador tem uma importância enorme e a manutenção de seus serviços são essenciais para o setor elétrico nacional, conforme o próprio Decreto nº 10.329 estabelece.

Quais são as outras ações preventivas focadas nos colaboradores que você poderia destacar?

Há várias iniciativas de comunicação com os colaboradores. Por meio de e-mails, temos acesso a dicas de prevenção: informações sobre acesso ao plano de saúde, localização de hospitais e ações de como proceder, caso seja infectado, mesmo estando em casa.

Temos recebidos e-mails e cartilhas para que possamos passar esse período, entendendo o que é esse vírus e orientações de todos os cuidados preventivos que devemos seguir. A empresa está preocupada em dar subsídio e suporte até o último momento.

Quarta maior geradora hídrica do país, como esse cenário de desaceleração econômica impacta a Santo Antônio? Quais são as preocupações da empresa nesse momento?

Considerando a fonte hidráulica mais barata na matriz elétrica brasileira, perseguimos a maximização de geração do potencial que o rio Madeira permite. Com a queda de consumo decorrente do impacto pelo coronavírus, observa-se redução da carga da ordem de 14% até o momento.

Com o consumo diminuindo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) busca equilibrar a geração das usinas, buscando o máximo aproveitamento de geração de energia na Região Norte do país, recuperando os níveis de armazenamento das usinas localizadas na Região Sudeste/Centro Oeste, e suprimento à Região Sul que tem apresentado grande estiagem de chuvas neste início de ano.

Por outro lado, algumas empresas estão alegando caso fortuito e força maior nos contratos de suprimento, em decorrência do coronavírus, para não pagar ou postergar alguns pagamentos. Temos trabalhado, junto ao MME e ANEEL, com apoio de nosso jurídico para afastar esta possibilidade, entendendo que não se aplica tal fundamento, e revertendo esse cenário de forma a preservar a receita da Companhia face nossas obrigações de pagamentos de diversos encargos estabelecidos no Contrato de Concessão.

A empresa já avalia alguma redução de investimentos em inovação?

O recurso do P&D é relacionado à receita efetiva. Como a Companhia tem uma receita garantida por meio dos contratos de comercialização de energia de longo prazo, em sendo mantida essa receita, não haverá impactos nos investimentos relacionados aos projetos de P&D.

Quais são, hoje, as maiores dores de uma área de inovação em uma empresa de energia elétrica como a Santo Antônio Energia?

Considerando o próprio ineditismo que é uma usina do porte da UHE Santo Antônio inserida na região amazônica e todos os desafios inerentes a essa questão, nos faltam empresas que conheçam e pensem em soluções no grau de complexidade requerido para estes desafios, que certamente, além de trazer uma melhor eficiência e maximização de geração na planta e melhor gestão do meio ambiente em que a nossa usina inserida, vai servir de aprendizado para todo o setor elétrico e, principalmente, para as próximas usinas previstas para a região, como por ex.: a UHE Tabajara e a usina binacional Brasil-Bolívia.

E o Energy Future permite exatamente isso: que as startups, os institutos de pesquisa, a academia, todos esses atores entendam o que é a UHE Santo Antônio. Isso para nós está sendo muito importante.

“O Energy Future permite exatamente isso: que as startups, os institutos de pesquisa, a academia, todos esses atores entendam o que é a UHE Santo Antônio.”

Você poderia enumerar alguns desses desafios?

Nós temos vários desafios, por exemplo, o ineditismos das unidades geradoras exigindo desenvolvimento de soluções para supervisão e diagnóstico prévio para identificação de falhas e o número excessivo de troncos, que estão no rio Madeira em época de cheia. Por essa razão, o rio leva esse nome. É um problema frequente que leva à perda de carga na grade. E, apesar do eficiente sistema de contenção de troncos que temos na usina, alguns, devido a extraordinária quantidade, acabam transpondo esse sistema ficando retidos na grade das unidades geradoras.

Outro desafio também é devido a elevada quantidade de sedimentos presentes na água do rio Madeira em épocas de cheia. Esses sedimentos, no longo prazo, acabarão provocando desgaste nas pás das turbinas e também o entupimento de filtros. Essas questões são permanentemente avaliadas por nossa equipe de O&M, onde, diga-se de passagem, vem desempenhando um brilhante trabalho com a diminuição das taxas de falhas e consequente aumento da disponibilidade da usina. Todavia, novas soluções são sempre bem-vindas para continuarmos na busca contínua pela excelência nas operações.

“Novas soluções são sempre bem-vindas para continuarmos na busca contínua pela excelência nas operações.”

Desde a concepção, o projeto da Hidrelétrica Santo Antônio foi idealizado para obter o máximo de aproveitamento do rio Madeira, com o mínimo de impacto socioambiental na região. Qual a necessidade da Santo Antônio em projetos relacionados à sustentabilidade?

Pelas questões geográficas, nossa preocupação com o meio ambiente, a Amazônia, é muito grande. Trabalhamos muito com projetos de sustentabilidade, como projetos de peixamento e de controle de diversas espécies de mosquitos, todos voltados em benefício da população ribeirinha.

Temos necessidades de projetos nessa linha, porque estamos dentro desse ambiente, que impõe a necessidade de compreendê-lo para minimizar os impactos das transformações do ecossistema e trazer soluções que beneficie a população local. Trabalhamos alinhados às orientações do IBAMA.

Hoje, portanto, não há uma carência de projetos de sustentabilidade?

Pelo contrário, a Companhia, atualmente, por força das condicionantes ambientais presentes na Licença de Operação, faz a gestão de aproximadamente 28 Programas Ambientais, os quais, além de consumir expressivos investimentos, exige uma intensa gestão pelos colaboradores da empresa. Dessa maneira, por meio de projetos inovadores em P&D, buscamos a otimização, redução de custos e melhor eficiência desses programas.

Desde o início das operações em 2012, a empresa apresentou seu “Plano Estratégico de Investimentos em P&D”, mas hoje existe alguma relação da empresa com startups e o empreendedorismo?

A empresa, como é muito nova, não tem essa experiência com startups. A gente entende que o setor está se direcionando para isso. As startups podem apresentar soluções mais rápidas e eficientes com menor custo.

E como não temos essa experiência, entendemos que o Energy Future é o canal estratégico para que consigamos nos aproximar dessas empresas. Entender melhor como é o fluxo desse trabalho e também demonstrar as nossas necessidades para estimular o retorno de bons produtos e soluções. A participação no Energy Future está sendo essencial nesse sentido.

De acordo com pesquisa do hub Sling, o setor de energia apresentaria o menor número de startups, constando na última posição. Na sua análise, a que se deve essa falta de interesse dos empreendedores?

A Aneel não nos dava a possibilidade aberta de buscar startups e outras soluções. Por todos os anos de operação da usina, a gente vem trabalhando com instituições de pesquisa, universidades e empresas, que faço questão de frisar que nos atenderam muito bem, respeitando sempre o tempo necessário que cada instituição leva para tomar decisão.

Contudo, chegou um momento que o setor entendeu que devia ir além. E algumas empresas buscaram outras soluções, minimizando risco de glosa de investimentos em P&D pela Aneel.

Hoje, a Aneel entende que não tem mais volta. Acreditamos que, no futuro próximo, as startups terão demandas muito maiores e serão estimuladas em desenvolvimento de soluções inéditas para o Setor Elétrico Brasileiro.

Você acredita que ter o recurso de P&D de forma regulada mais ajudou ou atrapalhou na inovação do setor?

Pensando como país, que tem ainda um processo de inovação muito pequeno, e pensando há 20 anos, quando começou tudo isso, foi um passo enorme. As empresas de energia elétrica não tinham esse viés de investimento, com exceção de algumas.

A partir de 2010-2012, o entendimento era que o processo estava muito engessado. O valor regulado já não era mais adequado, porque restringia o avanço tecnológico, a comercialização de produtos e a cadeia de valor. O Manual de P&D, que entrou em vigor no ano de 2012, possibilitou maior entendimento das concessionárias sobre o programa, que ocasionou num direcionamento maior de seus investimentos em projetos relacionados às últimas fases da cadeia de inovação.

Este fato trouxe como consequência uma evolução excepcional deste programa proporcionando um salto tecnológico para o país, com o desenvolvimento de novos centros de pesquisas e inovação. Até chegar esse novo momento em que se abre novas oportunidades de desenvolvimento de produtos por meio de startups.

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