Empreendedorismo, inovação e P&D no setor elétrico brasileiro

“A inovação é decisiva para propiciar a geração da energia demandada, em condições sustentáveis ambientalmente e a preços economicamente adequados.”

No Brasil e em todo o planeta, a economia capitalista contemporânea se pauta pelo processo sistêmico e universal de competição, buscando aumento de produtividade para manter e incrementar as margens de lucro do capital investido. A concorrência intrínseca neste modo de produção estimula a inovação, visando a constituição de novos produtos, tecnologias, serviços e processos para atender o mercado e viabilizar o próprio negócio. O desenvolvimento destes novos itens e a remodelagem daqueles existentes ocorrem em um ritmo acelerado, intenso e, muitas vezes, disruptivo.

A indústria da energia elétrica, contudo, tem tido uma característica histórica de saltos tecnológicos de longo prazo, dado o volume de ativos (depreciados pelo gigantismo), pela natureza do negócio ser intensivo em capital. Os padrões de construção de barragens, com usinas de geração de energia, usinas termelétricas, linhas de transmissão e distribuição e todo o aparato de regulação e fiscalização do Estado acompanham este ritmo.

Fatores externos de alto impacto estratégico afetam também o setor elétrico. A pressão generalizada por sustentabilidade ambiental e econômica gerou nas últimas décadas iniciativas de desenvolvimento de soluções energéticas menos poluentes, mais econômicas e capazes de atender os novos interesses do mercado.

A incorporação de centenas de milhões de pessoas ao mercado de consumo em todo o planeta, processo não ultimado, exige que a energia, base da atividade produtiva, viabilize a manutenção de um certo nível de crescimento da economia para absorver mão de obra e consumidores entrantes, para não falar dos bilhões já existentes.

Energéticos como carvão, petróleo e nuclear tem em cada um não só competidores intra-indústria, mas também adversários de grande e incremental poder de pressão no seio da sociedade civil e das forças políticas. As contradições entre a tendência declinante do uso de alguns insumos energéticos e a tendência ascendente de outros geram profundas ondas competitivas, inovadoras, criativas, mas também destrutivas.

A inovação jogou um papel decisivo para isto, haja vista toda a evolução das energias renováveis, as chamadas energias alternativas. Essas, por sua vez, trazem para o centro do debate nas academias e centros de pesquisa, nos centros de desenvolvimento tecnológico e na indústria, a necessidade de armazenamento, nova fronteira de inovação do setor, dando seus primeiros passos.

Este contexto histórico nos propicia uma certeza: a inovação é decisiva para propiciar a geração da energia demandada, em condições sustentáveis ambientalmente e a preços economicamente adequados. De fora para dentro, mais do que endogenamente, a competição como fator de emulação perpassou todo o setor, gerando um ecossistema de negócios que tende a ser cada vez mais dinâmico.

“a competição como fator de emulação perpassou todo o setor, gerando um ecossistema de negócios que tende a ser cada vez mais dinâmico.”

Visando introduzir dinamismo no seio de sua atividade, o setor elétrico brasileiro constituiu há décadas um modelo de desenvolvimento próprio visando trazer para o seu seio a característica central da economia de competição, a inovação. Pesquisa e Desenvolvimento, ou P&D, se tornou algo regulado e normatizado pelo poder concedente, a União, atualmente sendo exercido através da ANEEL, Agência Nacional de Energia Elétrica. 

A demanda por inventividade, transformação de conceitos em ideias-força, destas em projetos de pesquisa, destes em tecnologia, e essa se transformando em produtos e serviços, exige um aparato organizado, propósito do sistema de pesquisa e desenvolvimento supervisionado pela ANEEL.

As empresas estão indo além disto. Na medida em que percebem o aspecto central da inovação para sobreviverem, melhorarem performance e ocuparem mais “market share”, desenvolvem parcerias com universidades e centros de pesquisa, constituem dentro das próprias organizações centros de desenvolvimento de excelência, lançando mão de diversas maneiras de estimular a inovação: de fábricas de startups e desenvolvedores de software a novos modelos de gestão mais inclusivos, horizontais e democráticos.

O empreendedorismo como conceito vai tomando conta de pessoas e setores das empresas de energia, dando vazão à ideia de ter pensamento estratégico em toda a estrutura de poder da organização, não só na alta administração, procurando viabilizar o mimetismo destas tradicionais organizações, muitas vezes seculares, com o ambiente dinâmico e criativo da economia moderna.

“O empreendedorismo como conceito vai tomando conta de pessoas e setores das empresas de energia, dando vazão à ideia de ter pensamento estratégico em toda a estrutura de poder.”

Urge, neste contexto, ousar, potencializar todo o ecossistema historicamente constituído em torno do sistema de P&D ANEEL, saindo da caixa, abrindo corações e mentes para o novo, incremental e disruptivo poder de fazer acontecer existente nas academias, “think tanks”, startups e milhares de pessoas dedicadas ao empreendedorismo, inovação, pesquisa e desenvolvimento existentes no setor elétrico brasileiro.

Rodrigo Botelho Campos, economista, empreendedor, consultor e investidor, atuou por 34 anos no setor de energia. Foi superintendente da CEMIG e diretor de Furnas. É atual membro do Conselho de Energia na FIRJAN. Contribui com diversas entidades como ACNUR, UNICEF, MSF, Avaaz e Greenpeace.

O Energy Future é comprometido com a diversidade de opiniões dos nossos articulista convidados. Se quiser falar conosco, mande um e-mail para novidades@energyfuture.com.br

Total
0
Shares
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *